Relatos de uma expat.
Nossa linda juventude
Ouviu falar da história de uma vovó espanhola que ganhou de presente de seu neto pão-duro um blog?
Achei o máximo! E olha que o presente rendeu à senhora de 95 anos uma popularidade inesperada e o carinho de gente de todo o planeta. Tá aí para comprovar que hoje em dia, há idosos que tem mais juventude que muitos moçoilos de 25 anos.
Hoje é dia das mães. Mando aqui um beijo grande para a minha jovenzita mãe, leitora assídua deste blog , que está muito longe dos 95 anos, e que recentemente descobriu o mundo da internet. E mando também para ela um incentivo: porque não abrir um blog para contar os causos, como uma boa mineira?
Aqui, uma impressão em cianótipo, uma experiência interessante que fiz, orientada pelo meu mentor, Jorge.

Para ver o blog da simpaticíssima dona Maria Amélia, a blogueira mais idosa do planeta, clique aqui:







Arte na rua: cartões postais que juntos, criaram essa imagem. É a brincadeira da imagem. A imagem gerando outra imagem.
Esse é o cartaz de um ótimo espetáculo que assisti. Mesmo sem entender coreano, é possível se divertir muito... Mistura da arte marcial coreana - o taekowndo, com comédia. E pensei que os homens voavam com ajuda daquela cordinha invisível. Nada disso: voar é possível.
Uma belíssima rua com casas tradicionais...
Adoro o estilo dos móveis coreanos.
Brincadeira fotográfica: lanternas vermelhas e o rio.
Na Coréia, coroa de flores se dá quando é inagurado algum evento, desejando boa sorte à pessoa. Meio fúnebre para nós, brasileiros. 
Muro do palácio Gyeonghuigung. Cena de muitos filmes coreanos.
E o mesmo palácio: visão do alto.
Palácio Changdeokgung - Patrimônio da Humanidade tombado pela Unesco.
Coexistência pacífica: o moderno e o tradicional, juntinhos. (Queria tirar a foto da moderna arquitetura "torta" coreana)
E essa casa elevada? Não era por causa de enchente não. A Coréia, muito fria por sinal, tinha um sistema de aquecimento interessante: transferiam fumaça de madeira queimada em sua base para esquentar a casa. Chão quentinho de nome "ondol". Também usavam pedras aquecidas. Com isso, a casa se mantinha numa temperatura agradável, por volta dos 15 graus.Spice food
A culinária coreana é regada a muita pimenta, conservas e óleo de gergelim. O meu prato preferido é a “bibimba”, que nada mais é que arroz, muitos vegetais e claro, pimenta vermelha. É servida quentíssima numa panela de pedra. Tudo misturado, uma espécie de virado. Comida simples, barata, e uma delícia.
Um outro prato típico é o chamado “sangetan” que parece canja de galinha. Arroz dentro de um galeto, alho-poró. Acredito que seja o único prato coreano que não vai pimenta, mas sempre vai ter um pratinho de kimuchi (acelga cozida com pimenta), ou nabo com pimenta ou alho cru com pimenta (espanta vampiros depois de comer um único dente).
(o frango é servido assim, fumegante...sempre na panela de pedra)
Nessa outra foto, o set de comida coreana, bem tradicional: servir vários pratos (com pimenta, claro), usando muitos vegetais, pouquíssima carne, faz você pensar que a culinária coreana é bem saudável. Será? Esse excesso de pimenta me deixou com os lábios em chamas por dias...
Uma coreana dona de uma loja de souvenirs, pra lá de falante, nos deu de presente um quilo de kimuchi caseiro. O negócio cheira a alho a quilômetros de distância, por isso, arriscamos levar o kimuchi na mão, para o cheiro não impregnar na roupa dentro da mala. Resultado: apreensão do material, considerado inadequado para a cabine do avião.
Perguntei para a coreana: "me conta, vai: vocês comem kimuchi todo dia?" E ainda pergunta?Claro que sim!!!”, respondeu a falante senhora, uma simpatia que só ela...
(Mulher lavando na rua a matéria prima do kimuchi - a acelga)
Um passeio pela política coreana

Depois de 10 horas de vôo, chegamos em Seoul, capital sul-coreana. Viagem, fuso-horário, depois de tanto fazer essas idas e vindas, essas coisas se tornam corriqueiras e você aprende a dominar o corpo e o cansaço. Ficaríamos poucos dias em Seoul, então teríamos que aproveitar cada momento, já que o guia que comprei no aeroporto me mostrava diversas coisas interessantes que a cidade oferecia.
Chegamos cedo – 6h30 da manhã, o que fez com que chegássemos no hotel bem cedo. Chovia uma garoa fria e Seoul estava muito fria. Nada receptivo. Descansamos um pouquinho e fomos numa agência no hotel ao lado do nosso, onde sabíamos que tinha uma agência de viagem que fazia tours à região chamada de Panmunjeon. Chegamos na hora em que o ônibus saía e decidimos ir, mesmo com um sono danado e o risco de dormir muito no ônibus.
Logo de cara, várias regras para se fazer o passeio:
- levar o passaporte (nunca saio sem)
- não podia usar chinelos nem camiseta sem manga (com aquele frio, impossível)
- não podia estar bêbado (logo de manhã, era difícil)
- não tocar em nenhum equipamento ou bandeira do “lado comunista” da Coréia; (vi somente uma, num mastro altíssimo...nem se eu fosse o homem elástico)
- não falar, não apontar, não tocar em qualquer pessoa que esteja “do outro lado” (deviam dar um esparadrapo e alguma coisa para você amarrar as mãos)
O tour levaria seis horas e duas guias iam no ônibus com a gente: uma falando japonês e outra inglês. São tantas advertências dentro do ônibus que você fica até constrangido. Não faça isso, não faça aquilo. Não tire foto sem ser permitido, não aponte para nada, não, não, não... A guia deu uma explicação sobre você não poder apontar: “o povo lá do norte está olhando a gente com câmeras de vigilância. Qualquer movimento suspeito é perigoso e se você apontar, eles podem tirar uma fotografia sua e usar para propaganda deles.” Engoliu? Nem eu.

Para entrar na “Joint Security Area” , tive que assinar um termo de compromisso imenso, onde eu me responsabilizava se caso eu fosse ferida ou morresse diante de qualquer ação inimiga. Depois, fizeram a gente assistir a um vídeo, claro, com a visão do sul, mesmo nós estando em solo “neutro” (Será que eles mostram outro vídeo quando os visitantes vêm do norte?)

Os militares são jovens estudantes universitários, sempre. Tem que fazer esse serviço quando estão no primeiro e segundo anos da universidade. Olham para você com aquela cara de botar medo e parecem soldadinhos de chumbo nas suas fardas verdes. Imóveis!!!
Um dos militares disse ter mais de 300 visitantes por dia. Mas que dá uma impressão engraçada você depois do passeio parar numa lojinha de souvenir, ah...isso dá.
Só de longe, muito longe, se pode ver a bandeira norte-coreana hasteada, beeeemmm alta. Essa foto é da "propaganda village", para os sul-coreanos e curiosos observarem como eles vivem por lá.
Pra começar a falar das vizinhas do Japão - as Coréias
Muita gente pode perguntar: ir para a Coréia vale a pena? Eu também já tinha feito essa pergunta antes, mas é tão pertinho (1h20 de vôo de Osaka) e como fui por Seoul para Los Angeles, resolvi parar. Conhecer nunca é demais, né?

Para quem mora no Japão, num primeiro momento, a Coréia pode parecer muito com as cidades japonesas, bem como o seu povo. A língua é completamente diferente do japonês, uma escrita maluca que mais parecem bolinhas e risquinhos, incompreensível (o japonês antes para mim era também incompreensível e assim, de repente, fiquei tentando identificar no coreano alguma similaridade com o japonês – nenhuma).
Seoul é uma cidade interessante, bonita (para os padrões orientais), limpa, organizada. Aí você se sente no Japão. Mas a Coréia me pareceu com uma energia diferente do Japão. Nos trens, as pessoas conversam, dando a impressão de serem mais descontraídos. E os homens coreanos (apesar de terem o péssimo hábito de cuspir no chão) são altos (para a média oriental) e bem charmosos. Não é à toa que as telenovelas coreanas e seus galãs fazem o maior sucesso no Japão. Achei o homem coreano um pitéu.
(O ator Dong-kun Jang e a mulherada ensandecida)
Uma coisa diferente já em relação às mulheres: as japonesas no quesito vaidade ganham disparado, são muito mais kawaii (o termo para bonitinhas). As coreanas são bonitas sem serem kawaii, e tem uma outra característica que diferenciam das japonesas: não entortam as pernas ao andarem e mantêm seus cabelos na cor original. Já as senhoras de idade, todas elas parecem adotar o estilo “pama”, ou seja, cabelos curtos com permanente. Também tem um outro ponto diferente: a Coréia tem um cheiro característico no ar, resultado da sua culinária típica: pimenta, alho e óleo de gergelim, elementos fundamentais para a confecção de qualquer iguaria coreana.
História:
Todo mundo está careca de saber que a Coréia não é nada mais do que Coréias. São duas, apesar de uma. E talvez por sentirem uma certa responsabilidade nisso, muitos japoneses se sentem intimidados em pisarem na Coréia, por causa das histórias do passado. Mas, por incrível que pareça, os japoneses são muito bem recebidos por lá e a Coréia oferece uma grande infra-estrutura para o turista japonês, como por exemplo guias fluentes na língua bem como o staff nos hotéis e panfletos na língua nipônica.
Mas, voltando à história: O Japão já foi o dono do pedaço na Coréia entre os anos de 1910 e 1945, quando ficou sob o domínio do imperialista Nihon. Com o fim da segunda guerra e a rendição japonesa, a Coréia foi finalmente “libertada” e sabemos que foi dividida em duas zonas de influência (como a Alemanha): a do norte, comunista e a do sul, com forte influência norte-americana. Daí, todo mundo já deve ter ouvido falar nos problemas que existem entre as duas Coréias, ameaças de bombas atômicas, conflitos, (alguém se lembra do avião da Korean Airlines derrubado pela Coréia do Norte, em 1983 – aqui está a história), etc.
A Coréia do Norte continua lá, censurada, bloqueada, separada. E, por curiosidade em entender ainda mais tudo isso, fui fazer um passeio pela zona desmilitarizada, assinando termo de responsabilidade e tudo.
Continua...
Na terra das estrelas de Hollywood
Como uma legítima sul-americana, tenho lá minhas restrições aos EUA. Essa não seria a primeira vez a entrar em solo norte-americano, era a segunda vez que visitava Los Angeles. Em Nova Iorque fui uma vez, aproveitando o mesmo avião que vai para o Brasil, dei uma paradinha para esticar as pernas. Uns 4 dias foram suficientes para conhecer a cidade, visitar museus e engordar uns 5 quilos com a ótima culinária local...ótima para aumentar o seu colesterol, I mean.
Quando eu fui para os EUA meu amigo português me fez um pedido: prestar atenção se os americanos falavam “mother fucker”, ou isso era coisa de filme. Ahahaha...
Quando estive em 2004 em Los Angeles, ou LA para os íntimos, ou ainda Losu para os japoneses, fiz o passeio de turismo e fui visitar Hollywood, o teatro chinês, etc. Porquê? Porque é o único ponto turístico da cidade...hahahaha.... e porque era muito perto do local em que eu estava, perto da UCLA – Universidade da Califórnia.
De uma coisa eu tenho certeza: daquela vez eu já tinha ficado espantada com a dinâmica da cidade cheia de carros, limousines e tal, além de ouvir o espanhol a torto e a direito.
Na semana passada, fiquei de novo no mesmo bairro –Westwood – onde está a belíssima UCLA. Assisti a um Simpósio, apresentei trabalhinho, conheci pessoas interessantes. Sair da rotina da sala de aula é ótimo para respirar novos ares. Pena que esses ares tenham que ser distantes. Confesso: ando preguiçosa de viajar.
Na viagem aos EUA, valeu a pena eu ter conhecido e conversado com um americano cheio de histórias. Um veterano da Guerra do Vietnã, com muito orgulho de o ser. Era marido da amiga da minha amiga, apareceu para nos pegar vestindo uma camiseta onde se lia “veteranos do Vietnã”. Perguntei coisas da guerra, contou que tinha ido para o campo de batalha e tal, pegou nos “brinquedinhos” de fogo, como ele chamou. Experiência inesquecível. Ele sentia orgulho. Comentou sobre as eleições americanas, falou que não votará nem em Obama nem em Clinton: no primeiro porque ele não tem experiência militar e em Hilary, porque chama ela de joguete na mão dos outros. Republicano ferrenho. Já aí achei extremamente interessante conhecer um americano com orgulho de sua nacionalidade, coisas que pensamos só existir em filmes, pensando até que a casa dele teria uma bandeira na porta de entrada. Chegando na rua de sua casa, vi uma casa com uma bandeira – a única na rua inteira – e sim, era a casa dele.
Entrando na sua casa, vi que era uma espécie de museu da história americana. Bandeira, porta-retratos, etc. Toquei num assunto polêmico sobre a questão dos imigrantes mexicanos e se mostrou uma posição bastante controversa sobre a presença dos ilegais mexicanos em LA.
Apesar dessas posições ultra-conservadoras que garantem pessoas como Bush no poder, gostei de Bob - por motivos que aqui não vem ao caso - e mesmo com as suas convicções políticas duvidosas. E por falar em EUA, fiquei espantada com várias propagandas na TV. Uma mostrava várias faces perguntando se essa pessoa tinha cara de terrorista e tal. Isso para mostrar que qualquer um pode ser um terrorista. Até você.
Continua....
Abril, meio despedaçado...
Faz tempo que não escrevo. Não, não estou de férias. Pelo contrário, desapareci porque não conseguia um minuto de sossego para pensar nas coisas simples. O semestre começou, como sempre coisas novas, alunos novos, recém-saídos de um universo infanto-juvenil, com aquele brilho nos olhos...ter 18 anos, vida universitária, pré-fase adulta...ah...bons momentos que até eu sinto saudades, cada vez mais distante que estou .
Agora tenho que ir para um outro campus universitário, longe, que me faz acordar com as galinhas. Acordo às 6hs da madrugada, no verão tudo bem, as cigarras não te deixam dormir mesmo, mas no inverno, essa hora aquele breu; depois caminho 25 minutos para chegar ao ponto do shuttle bus e ir para o outro campus, meia hora no ônibus apinhado de estudantes que se deslocam...depois, ainda me colocaram num prédio de um museu, antigo, minha cara, mas com um detalhe: minhas aulas ficam no 5o andar e o prédio não tem elevador. Pernas, para quê te quero?
Coisas interessantes da 7a arte. Um filme chileno que adorei, “Machuca”, a visão de duas crianças sobre o período pré golpe de Pinochet. Tocante. Detalhe: "Machuca" é o sobrenome de um dos garotos.

E os 11 documentários, onze visões em nove minutos sobre o 11 de setembro. Coisas boas, visões viciadas, mas atenção especial ao do Ken Loach (que adora filmes politizados), com um chileno escrevendo cartas às vítimas do 11 de setembro. Lembrando que ele também, mesmo exilado na Inglaterra, é uma vítima de um 11 de setembro. Ironicamente, o golpe que derrubou o governo de Allende (com seu assassinato) foi também numa terça-feira, 11 de setembro de 1973. Pinochet no poder...quem estava por trás?Pense...pense...

Outro documentário interessante é o do japonês Shohei Imamura, sobre um ex-soldado que depois de ver os horrores da guerra e presenciar o estrago do ataque atômico ao Japão, pensa ter se transformado numa cobra: rasteja, pica, dá o bote...
Quem gosta de realismo fantástico e já conhece o estilo do diretor, é interessante (além da força física do ator que rasteja o tempo todo) .
Vou dar outra pausa: parto para a terra do Oscar, cidade dos anjos ou latina, onde apresento uma comunicação num simpósio. Depois de Los Angeles, uns dias em Seoul. Vamos ver se consigo chegar à fronteira da Coréia do Norte.
E agora, José?

Ontem foi a formatura dos alunos. Um dos dias oficiais para todos os formandos do Japão. Resultado: trens cheios, meninas usando kimonos, muita gente enfeitada, engravatada. Vale tudo para comemorar a entrada na vida adulta. Agora não tem mais jeito: o negócio é trabalhar, virar um kaisha-in, de preferência ser funcionário público, um dos empregos mais almejados e difíceis de se obter. Para isso, os alunos passam por uma maratona enquanto são estudantes. Entrevistas, palestras sobre o mercado de trabalho e os melhores ramos para se atuar. Tem aluno que chega a trancar um ano de faculdade para estudar apenas para entrar no emprego público.
Dia de formatura, cerimônia oficial. Depois, festa. Como todo ano, os alunos fazem uma festa e convidam os professores para comemorarem o fim dessa jornada. Geralmente é num restaurante, com menu fechado, mas bebida livre. Fomos num simpático restaurante com música ao vivo, onde uma cantora japonesa cantava em um português razoável os hits brasileiros daqui: “Mais que nada”; Chega de saudade”, etc. Como ela sabia da presença da única nativa falante, lá fui eu para o palco fazer um dueto do Garota de Ipanema. Acho que nunca cantei tanto Garota de Ipanema na minha vida como aqui no Japão. A música mais lembrada, uma das músicas mais cantadas. (Sempre lembro do meu amigo chileno brincar de chamar a “garota de Ipanema” de gorda, “porque ela é cheia de graça”...(hahaha... “grasa” em espanhol= gordura).
Afinal, a cantora animadíssima me chama para cantar “La gorda de Ipanema” e depois dançar uma salsa. Eu hein? Explicar para ela que salsa não era samba é o mesmo que explicar que a capital do Brasil não é Buenos Aires.
Na festa encontrei um ex-aluno que gosto muito. Foi para Recife, toca maracatu, fala com sotaque nordestino e sabe tocar um pandeiro que nunca vi igual. Masaharu tem 25 anos e é um desses que conseguiu um emprego como funcionário público. Rachou de estudar, obteve o emprego e já está há um ano na labuta. Pressão familiar por ser o único filho homem da família. Vontade real dele: viajar pelo Brasil, estudar Tambor de Mina (religião afro-brasileira praticada principalmente no Maranhão), conhecer outros lugares e financiar suas aventuras pelo mundo afora fazendo uns bicos. Mas não. Massa é funcionário público. Gosta de ir às festas de formatura porque ele tem a oportunidade de praticar o português, que anda esquecendo.
O trabalho dele é na prefeitura da cidade onde moro. Ele trabalha num setor que cuida do auxílio que a cidade fornece aos deficientes físicos e mães solteiras. Perguntei se ele gostava do trabalho e reclamou trabalhar muito, mais de 10 horas por dia. Disse que queria ir para o Brasil, tinha saudade. Perguntei porque ele então não tirava férias e ia, já que queria muito e agora tinha condições para tal. Disse que não podia tirar férias, porque no Japão ninguém tira férias. Abaixou os olhos, deu uma risada e falou: nós japoneses somos todos loucos, né?
Resumo da ópera. Férias aqui não é obrigatório, não faz parte da “lei” que te dá direito a viajar, descansar e tal. Mas você pode tirar uns dias, se quiser. Mas como ninguém se arrisca a tirar, fica esse lenga-lenga, todo mundo trabalhando prá caramba para poder viajar somente quando se aposentar. Perguntei para ele o que aconteceria se ele tirasse as férias tão sonhadas. Provavelmente quando ele voltasse, estaria alguém sentado no seu lugar na mesa dele.
Japoneses tem 10 dias de férias somente quando se casa. Falei para ele então se casar. E depois se separar. E depois se casar de novo. E depois se separar. (aqui no Japão, se casou hoje, divorciou amanhã, pode se casar de novo depois de amanhã). Assim, quem sabe, conseguiria num ano ter um mês de férias. Casar também sem bolo e sem festa. E de preferência com uma agente de viagem...ah...pra dar um descontinho na caríssima viagem para o Brasil.
De leituras e modernidades
Estou finalmente terminando de ler um livro que tinha começado umas trezentas e quinze vezes. Sempre parava e não sabia porquê. Acho que esse livro me acompanha há uns 10 anos; comprei em sebo, achei aqui no Japão e finalmente li em apenas um mês. Acho que agora era o momento, como se fossem cem anos de espera para eu finalmente me debruçar na leitura da saga das 7 gerações de uma família, espalhada em 362 páginas miúdas. Cem anos de solidão arrisco dizer ser um dos maiores livros da história da literatura. Do Gabriel García Marquez, já tinha lido O Amor nos tempos do cólera, Ninguém escreve ao coronel e Memórias de minhas putas tristes. Se você é daqueles que adoram o realismo fantástico, não perca tempo: comece a ler agora – mas se prepare: os milhares de personagens que aparecem na história (afinal, mais de cem anos contando as desventuras da família Buendía, em Macondo) podem te fazer fundir a cabeça. Adorava a Rebecca: comia terra e o cal da parede. 
Esse livro comprei quando estive no Brasil dessa última vez. Queria fazer um post sobre cada capítulo do livro, delicioso que só. O autor veio para o Japão na época da ocupação americana daqui nunca mais saiu. Por ser americano, era proibido de se misturar com os “nativos”. Não se fez de rogado, se apaixonou pela língua e sua gente, pelo cinema e é um dos grandes especialistas em cinema japonês. Ainda hoje, já bem velhinho, dá palestras por aqui.
O seu livro é uma jóia. A partir de histórias reais de anônimos e famosos do Japão, monta um retrato de um Japão, construído com o seu olhar de estrangeiro. No capítulo, fala de Mishima (conta encontros e conversas fabulosas que teve com o escritor), Ozu, Kawabata, a polêmica e verdadeira Sada Abe (a que cortou o pênis do marido morto em Império dos Sentidos); entre outros.
Para quem gosta de Japão, ou se já morou aqui, é uma leitura estimulante e intrigante.
O sol se põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho.
Conheci Bernardo Carvalho em 2004, quando ele veio para Osaka fazer a pesquisa para esse livro. Simpático, de voz calma e macia, em visita a universidade, falou que o livro que ele estava pensando em escrever teria uma referência velada à obra de Junichiro Tanizaki. A obra saiu, li e em alguns momentos do livro tive uma espécie de deja-vu, e depois me lembrei que alguns casos no livro foram temas de conversa numa mesa de bar. O livro é bom. Gostei do estilo de Bernardo, gostei do tema e da referência ao mestre Tanizaki. Vale a pena também conferir Nove Noites, do mesmo autor.
A Amazon lançou um aparelhinho que te pemite ler os livros, sem precisar comprar na forma de papel. A maior sensação, o kindle está esgotado, por tanta gente louca atrás dele. O preço é salgado: U$399,00 dólares. Mas os livros que você pode ler no aparelhinho (não deixa de ser um e-book), tem que comprar na Amazon, viu? Nada de arrastar aqueles milhares livros baixados ou os seus textos em word. Isso você pode até levar para o seu kindle, mas tem que pagar...

Ah...mesmo se um dia isso se popularizar a ponto de ser barato e tal, não sei se vou aderir a moda...gosto tanto de ter os livros, reler e achar aquele livro com uma notinha dentro, escrever comentários...(ahahah...eu escrevo sim nos meus livros). Sem falar que não consigo imaginar minha casa sem meus livros espalhados. Sem falar em ácaros e traças, que sem os livros, coitadinhos...afinal, eles também tem direito à vida!
Tá bom. Eu confesso. Eu leio a VEJA. Podem falar o que quiser, mas é a única revista brasileira que a universidade compra e eu sinto tanta falta de folhear revista em que eu entenda o que está escrito... na internet não é a mesma coisa. Mas a minha dinâmica de leitura da VEJA (que chega ao Japão, claro, com atraso, e na universidade com muuuuito atraso), com as notícias atrasadas, ( e não é que não se percebe o atraso, com a atualidade e moto-contínuo das notícias), se resumem a ler a sempre de trás para frente, os comentários de cinema (nem sempre bons, mas me permitem ficar atualizadas em relação ao que o povo anda vendo no Brasil); os livros que saem; as fofocas da sessão gente (inútil, mas todo mundo adora uma fofoca de celebridade); as páginas amarelas (quando o assunto é interessante e tal). Mas o que eu mais gosto, confesso agora. A coluna, a última página (para mim, a primeira), do Roberto Pompeu de Toledo. Porque, independente do assunto que ele escreve, se concordo ou não com as idéias dele, é um jornalista que tem estilo. Diferente da colunista Lya Luft, que para mim tem um estilo morno, que não me agrada. Mas gosto é como boca: cada um tem a sua.
O título : Modas para fazer frente ao ladrão.
No ensaio, ele magistralmente ironiza a capacidade de invenção japonesa para enganar o ladrão na hora do aperto. E não é que a coisa é séria mesmo? Uma designer inventou uma saia que pode ser transformada em nada menos do que em uma máquina de refrigerante; e uma bolsa que na sua aflição, se jogada no chão, ela se assemelha a uma tampa de bueiro. A idéia de tais apretechos é realmente surreal, mas morri de rir quando o autor do ensaio tenta levar tais invenções para a realidade brasileira. Vale a pena a leitura:
Saias, bolsas e outros itens que driblam os assaltantes: idéias do Japão que poderíamos adotar.
Não é brincadeira. Nem se trata, a saia criada pela estilista Aya Tsukioka, de 29 anos (o nome e a idade vão para amansar os incréus), do único produto do gênero. Há também a bolsa que se transforma numa dessas tampas de ferro que, nas ruas, dão acesso aos encanamentos e à fiação subterrânea das cidades. A bolsa, redonda, chata e cinzenta, é uma exata imitação desse tipo de tampa. Vai sua portadora pela rua quando vê despontar o suspeito. Numa manobra rápida e discreta, ela joga a bolsa no chão. Claro que não poderá andar com a bolsa estufada de objetos, sob pena de a suposta tampa exibir uma suspeita protuberância. Ao contrário da maioria das mulheres, terá de ser contida, e não levar senão uma magra carteira e outros poucos e delgados itens.
Outro artefato ainda, este para uso das crianças, é uma mochila escolar que, virada pelo avesso, ganha a aparência de extintor de incêndio. O surto de criações destinadas a espantar o ladrão mostra que os japoneses andam preocupados – e isso num país que, segundo nota a reportagem do New York Times, apresenta índices de criminalidade sete vezes mais baixos do que os dos Estados Unidos. Se é assim com relação aos EUA, quanto será com relação ao Brasil? Nem é bom saber. O Brasil, sim, necessitaria de engenhos semelhantes. Que forma poderiam assumir por aqui?
Está afastada a hipótese de simplesmente importarmos os modelos japoneses. São raras, no Brasil, as máquinas de vender refrigerantes, e mais raro ainda é encontrá-las nas ruas. Isso não ocorre por acaso. Ao relento, elas só sobreviveriam umas poucas horas aos ladrões que lhes levariam as moedas e aos vândalos que as depenariam até o último fiapo da carcaça. Usar um tal disfarce, em nosso país, traria risco maior do que apresentar-se de peito aberto ao ladrão. As tampas de rua, por sua vez, nas cidades brasileiras costumam ser alvo dos ladrões, para venda no ferro-velho. O ladrão, por aqui, se sentiria atraído pela tampa. Ao descobrir que se tratava de uma simples bolsa, ele se sentiria logrado e, localizando o autor do embuste, o atacaria com redobrada fúria.
É preciso buscar soluções ajustadas à realidade brasileira. Se aqui faltam máquinas de vender refrigerantes, não faltam postos de gasolina. A saia poderia disfarçar a portadora numa bomba da Shell. Outra coisa que não falta no Brasil são farmácias. Para grupos de mulheres, a sugestão é que usem saias, cada uma imitando uma parte da fachada de um desses estabelecimentos. À aproximação do ladrão, elas se juntariam umas às outras e, como peças que se complementam, se fingiriam de farmácia. A menos que o ladrão, atormentado pela dor de cabeça, esteja justamente em busca de um analgésico ou, pior, venha com o plano de assaltar o caixa da farmácia – ambas hipóteses que, convenhamos, só se confirmariam em caso de muito azar –, estariam a salvo. Quanto à bolsa, se fabricada com esmero, para dar ilusão de profundidade, imitaria, em vez de tampa, um buraco. Jogada ao chão, ela se integraria sem susto à paisagem de nossas ruas.
Muitas outras sugestões podem ser apresentadas. Uma é a máscara de Luciano Huck. O fato de todo ladrão, no Brasil, saber que ele já perdeu seu Rolex é garantia de que o usuário não seria importunado. Outra é um disfarce do deputado ou senador à frente do escândalo do momento. Seja de humilhação, diante do concorrente imbatível, seja para proteger seus próprios valores, ao ladrão só restaria fugir. Outra ainda é uma capa que, desdobrada, faria do portador uma exata reprodução do ministro Nelson Jobim em farda de camuflagem. O produto estaria disponível em três versões, correspondentes ao grau de ameaça que se deseje impingir ao ladrão: o ministro só de farda, de farda e segurando um macaco e de farda e segurando uma sucuri. Idéias não faltam, nem faltarão outras, melhores. Os estilistas do Brasil estão convocados a, tal como os colegas japoneses, dar sua contribuição para o sossego nas ruas.




